Não é um texto do Arnaldo Jabor

A Síndrome de Diógenes se caracteriza pela compulsão de uma pessoa em guardar coisas que lhe parecem úteis. Essas coisas viram detritos, se acumulam pelos cômodos da casa, tornando um verdadeiro aglomerado de sujeira e tralhas, mas que a mente doentia não consegue se desvencilhar.

Manifesta-se particularmente em pessoas mais velhas, que acabam por se instalar numa solidão tão grande que tudo aquilo que carregam, acreditam encontrar espaço.

Da nossa maneira, somos às vezes portadores da síndrome. Acumulamos lembranças; pessoas, verdadeiros lixos; espalhados pelos cômodos da consciência. Poderíamos muito bem nos desfazer. Isso não acontece não por capricho da ciência. E sim pela condição humana de se agarrar a objetos metafóricos e a tudo que em um baú de saudade dá a impressão de eterno. Esquecidos, podres e cheios de odor vão respingando algum prazer demente quando vistos em nosso redor.

São épocas espalhadas pela sala. Amores derramados pelo quarto. Planos sobre a mesa. E sonhos dependurados na janela.

Vivemos longos períodos sem medicamentos e, de repente, eis que surge sob o criado mudo uma cartela inteira de nostalgia e doses cavalares de desejos esquecidos.

Como a Síndrome de Diógenes, é uma doença. Um estorvo de prazer que nenhuma casa merece aprisionar. Ainda mais essa tão apertada, que pulsa dentro do peito.

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25 Respostas to “Não é um texto do Arnaldo Jabor”

  1. Dudu @osprimitivos Says:

    Obrigado Tio Dino por abrir minha mente, hoje mesmo irei desfazer de algumas coisas que velhas que sempre guardei no armário. Vou tirar meus avós do baú.

  2. eternalis Says:

    Juro que tento me recuperar dessa síndrome… Mas, é bem difícil, pelo menos para mim!

  3. Laura Says:

    Pôxa!!!!!

    Profundo, real e não querendo exagerar: poético.

  4. bea hein Says:

    Nao e um texto do Arnaldo jabor , mas poderia ser.
    Lindo. E olha q hoje em dia e tanta gente escrevendo que da preguica de ler.
    Eu nao sabia como se chamava essa doenca em portugues, na tv a cabo eles mostram como algumas pessoas sofrem com essa doenca e como e dificil o tratamento na serie “hoarders”.
    Me fez pensarque preciso pensar menos.

  5. renatininha Says:

    Eu pensei em umas três piadinhas (provavelmente sem graça alguma) para comentar esse post, mas seria descabido tais comentários, além de uma tremenda injustiça com o ‘Tio Dino q tb escreve a sério’. Excelente texto, mais uma amostra de sua sagacidade!

  6. Saulo_Assis Says:

    O Tio Dino é um fanfarrão mesmo. Fica atacando de comediante virtual stand up (caso isso exista), mas está é cheio de amor pra dar ou de amor pra esquecer.
    PS: As fotos continuam as melhores

    • Dino Cantelli Says:

      Viram, meninas?

      Mas Saulo, o que mais me impressionou em seu comentário foi seu e-mail. Você ainda usa ZIPMAIL! É o vinil dos e-mails.

  7. Paulo Says:

    Jogando tudo fora hoje, inclusiva a namorada que já se tornou uma um costume… Valeu pela dica…

  8. Rodrigo Jager Says:

    Quero ver quem vai apagar as musicas de mais de um mes do HD… O problema é que a vida é curta e muitas vezes ingrata, nos apegamos as memórias/coisas/pessoas no medo de não vivenciar algo tão interessante novamente ou na esperança de que elas façam parte quando (se) isso ocorrer.

  9. lucasquintanilha Says:

    história da minha vida kk

  10. Claudia Fernandes Says:

    Que bonito, hein?

    Texto com uma linguagem simples, mas com um conteúdo bastante profundo.

    Parabéns!

    Sua seguidora,

    @claudiapinelli

  11. Aurora Says:

    Texto sensacional! Parabéns.

    Complementaria com o quanto esses objetos obsoletos e memórias estagnadas nos afetam no ponto de vista energético. Na vida tudo não passa de um balanço de massa: o que entra = o que sai. Se não sai nada na sua vida ou na sua mente, não tem como entrar “o novo”.

    Um abraço.

    @aurora_ferraz

  12. Kátia Says:

    T.Dino,

    Lembrei-me de um caso em que um homem morre em sua casa preso ao seu próprio lixo guardado por anos. Fez da sua vida um labirinto e de lá só saiu morto. É triste, e faz pensar sobre o que é realmente importante levar em nossas vidas. Bem, pelo visto o acúmulo é que não é. (momento ACTIVIA.)

    Brincadeiras a parte o seu texo e reflexivo e inspirador. Parabéns.

    @katiamart

  13. carla Says:

    tio levou um pé na bunda.
    fica assim não.

  14. Viviane Says:

    Olha, não conhecia seu blog e gostei bastante. Achei o texto bacana, apesar de meio amargurado. Dá a impressão que você tem algo do qual quer se livrar e não consegue. Acabou encontrando alguém que manifestou a mesma característica e escreveu sobre ela. Não sei o quão fácil ou difícil pras pessoas pode ser livrar-se de coisas da casa ou do coração. Sei que pra mim é muito fácil deixar algumas coisas e outras não. Contém algum valor, que eu imputei e não consigo “pegar de volta”.
    Enfim, agradeço pelo seu texto, pois ele me fez pensar no que meus amigos vivem me dizendo: “esquece isso!” E talvez a impressão que tive foi algo que identifiquei em mim mesma.

  15. Bruno Henrique Pereira Says:

    li o texto certo no momento certo

  16. Nadia Says:

    Tiodino, eu te amo.

  17. Alex Mendes Says:

    Queria profundamente me desfazer de um sentimento por uma pessoa que me despreza, mas não é tão simples assim, a gente faz planos, sonha com a vida a dois, isso somado a carência de afeto e ao romantismo repreendido, gera uma obsessão tão grande, ao ponto da pessoa alvo de tamanha adoração, passar a sentir medo da gente, ah meu Deus, como alguém pode ter medo, este sentimento que paralisa e aterroriza, de uma pessoa que talvez o único mal que cometera na vida é amar demais, quem não estava preparada para amar e para corresponder a este amor.

  18. Rodrigo Says:

    Não é do Jabor? Bão hein sô! Foi bão que assim eu li.

  19. João Pedro Says:

    Caramba, que texto bom

    @JPedroRocha

  20. Luciano Luz (GUI) Says:

    MUITAS PESSOAS PRECISAM LIVRAR-SE DESSE MAL…

  21. Pri Says:

    Todo mundo guarda algo que já não serve mais.
    Como nas campanhas de agasalho, acho que na vida também funciona assim.
    Você precisa doar as coisas que não te servem, só que a diferença é que, se tratando de pessoas, TODAS já foram “usadas” anteriormente, então TODOS somos um monte de LIXO.

  22. Juliana Bakos Says:

    Gostei viu !!!

  23. andrea Says:

    amei

  24. Aline Says:

    Não é fácil desapegar de coisas e pessoas que de alguma forma marcaram a vida da gente.
    Esse texto me lembrou uma frase que eu li há poucos dias. Aí vai:

    “Na vida, chega uma hora em que você descobre: – Quem interessa. – Quem nunca interessou. – Quem não interessa mais e – Quem ainda vai interessar. Portanto, não se preocupe com quem já fez parte do seu passado: há motivo para não estar em seu futuro.”

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