Archive for janeiro \27\UTC 2010

Do tempo

27/01/2010

– Cara, acabei de receber aquele vídeo da mulher que fala Youtube com dificuldade. E o pior, com KKKKKKK na frente.

– Nossa, essa é do tempo que tinha que pagar frete pra carregar página.

– Do tempo da conexão a vapor.

– Da época que o Twitter não tava nem no ovo.

– Tempo que o Gmail era trazido pelo carteiro.

– Que pra tirar foto com o celular tinha que comprar filme de 36 poses.

– Do tempo que dava pra lavar as janelas do MSN.

– Do tempo que o Farmville era só uma chácara.

– Em que a Apple tava ainda no pomar.

– Que o Kindle vinha com um brinquedo dentro.

– Do tempo que jornal online tinha cheiro de tinta.

– Amigo virtual te cumprimentava na rua.

– Rede social era uma associação de pescadores.

– Sexo virtual não transmitia vírus.

– Norton era só um tio que te visitava nos domingos.

– Photoshop era em preto e branco.

– Pra jogar Guitar Hero precisava ser músico profissional.

– Os números no teclado eram em romanos.

– Do tempo que o leitor de DVD ainda tava se alfabetizando.

– A calculadora do Windows era um ábaco.

– O Wii era jogo de taco.

(…)

Cacete. É antigo mesmo.

@tiodino e @microcontoscos.

Sou fluente em palavrões

26/01/2010

A moral foi banalizada, isso todo o mundo sabe. E o palavrão também. É só constatar os inúmeros predicativos que hoje voam no vento sem encontrar um ofendido. Digo um ofendido legítimo. Em um país como o nosso, onde a língua é plural até demais, chamar uma pessoa pelo nome que realmente lhe cabe se tornou tarefa para exímios linguístas. Quer ver em tempos como os de agora, onde macular uma moral da maneira que se deve e de quem o mereça, é trabalho hercúleo.

Embora a língua – como forma natural de sobrevivência – se transforme constantemente, ainda há certa esperança em palavras que foram criadas para atravessar séculos e com a sua funcionalidade e impacto intactas. É o caso de CANALHA.

Tudo muda quando alguém chama alguém de canalha. Não é a mesma coisa se você chamar de “veado”, PNC, FDP ou outra sigla perigosa. Essas denominações chegam a ser carinhosas, dependendo da afinidade. Chamar uma pessoa de canalha é um atestado. É um distanciamento.

Segundo o escritor Deonísio da Silva: “canalha do italiano canaglia, da raça dos cães, radicado em cane, cão, mais sufixo depreciativo, designando o que é infame, vil. O conjunto é também denominado canalhada, cáfila, cambada, corja, malta, quadrilha, récova, récua e súcia”.

Mesmo que você não tenha compreendido porra nenhuma deste parágrafo, já partiria para a briga.

Retratos de uma geração

26/01/2010

Campus Party. O melhor lugar para deixar a sua filha correr pelada.

Ladrão de tweet. O mais baixo na escala dos… bem, você já deve ter lido algo assim

20/01/2010

A partir de hoje, todas as frases ou textos que me inspirarem creditarei “tá rolando nos jornais”, “vi pela internet” e “alguém falou na TV”. Aconselho você a fazer o mesmo. Facilita a vida de todo o mundo e abranda essa fome mundial por holofotes, fama e fortuna que a ralé tem.

Além disso, convenhamos, é um saco checar a origem do achado. E de um tédio descomunal procurar essa famigerada fonte. É melhor deixar para os jornalistas. Principalmente os formados.

Somos amadores de algo que não é digno de ser chamado de profissão. As putas pobres que fazem os outros gozarem. E que ainda pedem desculpas depois de serem usadas.

Os anfitriões de um banquete que se contentam em comer as migalhas. Atores que filmam as suas próprias vidas e nos créditos não são lembrados nem como figurantes.

Nunca passou pela mente – ao menos conscientemente -, me apoderar de qualquer coisa de alguém. Fosse relevante, fosse inexpressiva.

Não dá. Tenho uma cerca eletrificada na cabeça entre o cretinismo e a moralidade. Uma não consegue ultrapassar o terreno da outra. As descargas são desagradáveis.

O conceito de autoria no Brasil não é algo bem visto. Pudera. Sempre fomos papagaios do mundo. Amaldiçoamos o que dá certo. Louvamos o que parece ser – e que sempre acaba se revelando o que já deveríamos ter desconfiado: não é porra nenhuma.

Pouco me importa se alguém plagiou ou incorporou algo que eu tenha feito. Para o bem ou para o mal, é provável que de onde saiu tenha mais. O que aborrece é que ganham dinheiro com essa ludibriação. Recebem elogio e comenda por serviços não prestados. Atitudes que fazem lembrar o que minha saudosa vovó dizia: “uma gente que insiste em gozar com o pau dos outros, porque naquela cabeça, há muito tempo falta ereção”.

Brigar por uma piadinha é medíocre. Mas aplaudir um falsário, prova o quanto você é ridículo.

Eu perco o follower, mas não perco a piada

13/01/2010

Apontem-me 3 pessoas imprescindíveis na internet que eu indico 4 sites de sacanagem bem melhores.

O lado bom da web é que é tudo diluído, antimonopolista, principalmente quando se trata de humor. O lado ruim é que a gente tem toda a informação de que não precisa. E sempre está a cata de um ícone; um padrão; uma referência.

Sei lá, influência na rede para mim é o seu patrão, que libera ou trava sites a hora que ele bem entender.

Já comentei outras vezes on-line sobre a banalização do standup. Não vai levar muito para vermos gente contando piada nos semáforos.

Confesso também que me decepcionei com humoristas que aderiram, por exemplo, ao Twitter. Vivem assassinando o português, e nem é na piada. A diferença deles para os amadores é que o “Galera, peidei” que escrevem dá muito mais RTs.

Nessa era que celebra o imediatismo, vai de cada um fazer a peneira nessa selva que disputa “hahahas” automáticos. Todo dia na internet nasce um comediante e morre uma graça.

O humor na rede é altamente perecível. E se não transportá-lo com cuidado, caro comédia, estraga.

Férias, quem curte?

08/01/2010

[início da desculpa] Um relato em tópicos que já deveria ter entrado no ar, mas que a preguiça motora e a convalescença mental não permitiram a evacuação . [fim da desculpa]

– Tão certo quanto a morte é que as suas férias não deram pra nada. Não é o caso dos seus primos de 4 e 5 anos que em 2 horas ao seu lado, parecem que aproveitaram uma década. Cadê o Inmetro para controlar os decibéis desses desgraçados?

Aliás, criança é um bicho muito chato quando não domesticado. Adiante:

– Comecei meu período de folga e libertinagem da maneira mais medíocre possível: dormindo até tarde. Preparei malas e me despedi de outras. Depois de algumas operações e burocracias que aqui fica maçante mencionar, viajei.

Destino: Juazeiro, na Bahia. Por que? Não interessa.

– Piloto de avião e cirurgião, quanto mais cabelo branco, mais sossegado fico. Se bem que o comandante logo lembrou Edward Smith, aquele capitão do Titanic, o que me deixou inevitavelmente apreensivo.


Nosso co-piloto Tonhão. Depois de anos de Flight Simulator, chegou a hora e mostrar o que aprendeu.

– Graças à despressurização, crianças chatas estão a salvo de serem defenestradas dos aviões comerciais. Não sei que fascínio elas possuem em gritar. E não é por um motivo decente. É por toda e qualquer condição. Havia uma dessas próxima a minha poltrona que fazia tanto barulho quanto as turbinas do AirBus.

– Passadas algumas horas e duas conexões típicas do setor aéreo atual comecei a reparar nas pessoas que iam e vinham. Consegui identificar todos os que estavam embarcando para Fortaleza basicamente pelo formato da cabeça. Ao meu lado sentou-se uma francesa de uns 70 anos. Soube da procedência porque mencionou algo sobre Paris junto de seus “erres” arrastados. Acredito que era fajuta. Falei “garçom” e “abajour” e nem respondeu nada. Só deu um sorrisinho malicioso quando mencionei “soutien”.

– Foi uma viagem extremamente cultural: nunca li como nessas intermináveis horas até o destino. Andei tanto em ônibus e automóvel que tive de reaprender a caminhar. Pensei que Juazeiro fosse mais perto. E olha que no mapa só dava um palmo (!)

– Chegando ao semi-árido deparei-me com uma verdade insofismável: pode estar a maior seca do mundo. Você não encontra jumento magro.


Espécie ameaçada de extinção no Nordeste.

– Há algumas regiões que possuem verdadeiros depósitos de lixo a céu aberto. É a caatinga fazendo jus ao trocadilho.

– Já no destino usei todo o clichê turista fotografando e visitando o que é devido. Do bar especializado (e fechado) em derivados de bode, o Bode Esponja, ao Rio São Francisco, Petrolina e adjacências.

Lugares incríveis e produtivos que me fazem pensar que o Nordeste só precisa de mais irrigação e menos área livre para montar palanque político.


Um gole pro santo. No caso, o São Francisco.

– Tudo na Bahia tem pimenta. Das baianas às comidas. Sobre música, a proximidade com Pernambuco fez o forró prevalecer. Voltei de lá ouvindo o triângulo pé-de-serra até mais ou menos outro triângulo: o Mineiro.

– Ivete e João Gilberto nasceram em Juazeiro. Até o Carnaval deste ano foi alterado em razão do aniversário da filha ilustre. Será em maio (!). Sobre João Gilberto ninguém quis se manifestar com receio de que ele reclamasse de alguma coisa.

– Acarajé é um negócio muito bom que eu não gosto. Mas é uma questão pessoal. E outra: o “é pra já” do baiano demora uns 15 minutos. Isso aconteceu em pelos menos três lugares.


Uma passada pelos Estados Unidos.

– A volta foi uma verdadeira odisseia a bordo de um automóvel popular. Imaginem 3 mil e poucos quilômetros. É de cansar o pensamento.

– Em alguns momentos só o que se via eram morros e pedras. Nelas, escritas sobre “Cristo” e a “salvação”. Como se no Evangelho houvesse alguma menção a ficar pichando o que vissem pela frente.

Quando o homem tenta comungar com a natureza, pensa que é assim.


Zoofilia comendo solta em Minas.

Todos os anos canto pra ela: “Eu conto os dias, conto as horas pra te ver. Férias, te amo”.

Músicas que não têm mais concerto

06/01/2010

Abaixo segue uma letra de uma música que fiz para o Raul Seixas. Se estivesse vivo, gostaria que gravasse. Ouçam:

Vermelho

O vermelho é vida… ou morte
Depende do furo da faca
Ou do tamanho do corte

É de vitorioso ou fracassado
Olhos vermelhos, quem sabe,
de um viciado

O amor é vermelho
A paixão é como o torcer de um joelho
Ela indigesta como um caroço
Ele grosso como um pescoço

O amor é uma dádiva enganada?,
As pessoas são tão feias
Por dentro buchada
Por fora pele, pêlo e veias

O vermelho no peito e um enfarte
Vômito de um porre de Cardinale

É mosquito esmagado
O modess e a hemorróidas
Hemorragia e discórdia
Tudo dentro de um mesmo pote

De ameixas podres

Um morango, uma maçã
Laço de presente
Fígado estragado
Batom de perua
Gengiva de desdentado

O desejo de um beijo.
Um soco, um ferimento que ainda sangra.
Alguém que ainda joga e tem sorte
Sangue, sangue…

Que manca e corre
Apenas um tapete
Que aperta e reza
Que lhe façam um torniquete

Fraco, firme, doente e forte
Sangue, sangue…
Vida ou Morte.

Chupins e curruíras

06/01/2010





E assim sintetizamos o que é um contribuinte brasileiro.

Fotos de Enio Frassetto.