A PIADA DO ELEVADOR

Andrade de Moraes era um empresário. Também, com um nome desses só podia ser isso. Ou então um nome de uma rua. Onde você mora? Na Andrade de Moraes, 1.408.

Bem, mas não é o nome de Andrade que está em discussão, e sim, as piadas de Plínio Albuquerque. Diferentemente de Andrade, Plínio não quis ser nome de rua, nem preteriu algo a mais do que um auxiliar de escritório. Plínio se estabilizou ali. E iniciou a sua saga de um legítimo contador de piadas dando expediente no escritório de Andrade de Moraes e Associados.

Começou na adolescência. Tal como a urgência de viver desta fase, suas piadas eram curtas. Limitavam-se a “o que o Tico disse pro Teco na cabeça da loira” e a dos pontinhos e derivados. Só que logo viu que estava crescendo, já não queria ser comparado a um infantil desmiolado e foi mudando: tanto no corpo, quanto nas piadas. Passou a usar muitas conotações sexuais, coisas de duplo sentido, tiradas sacanas e várias piadas de freira, padre e papagaio – claro.

Aos vinte e poucos, época rebelde, engajamento estudantil, resolvera elaborar as anedotas. Agora tinha política e situações escabrosas da sociedade brasileira. Muita coisa boa, muito escracho e muita ousadia, coisas estas que lhe custaram alguns dias na DP do bairro e muita ovação por parte de uma platéia anônima. Típico e apropriado para o momento.

Isso durou até os trinta e três, quando Plínio descobriu a piada do elevador.

****

Assim como o romântico não sabe explicar o seu amor àquele poema, o cinéfilo a preferência àquela película, ou do músico pela música que toca e re-toca, Plínio acabou fascinado por uma piada sem graça e que tratava da cobrança por andares no elevador. Era uma tirada sem fins engraçados contada pelo patrão. Ta aí a razão de ele ter achado graça naquilo. Qual empregado não acha graça de uma piada proferida pelo patrão? Só o despedido.

Todo dia, às 8h30, Plínio Albuquerque embarcava o seu pé tamanho 44 no elevador principal do prédio. Só fazia isso se alguém entrasse junto dele.

–         Bah, que coisa, então agora estão cobrando por andar.

–         Como?

–         Não ficou sabendo?

–         Não entendi o que senhor disse.

–         Estão cobrando por andar. Um real por andar. Um absurdo.

A ascensorista baixava a cabeça. Já sabia que conversa era e para onde iria. Afinal, há mais de meses ele vinha com a mesma sacada indigesta. Um dia qualquer ela iria bater de frente com ele, interpelá-lo ou até censurá-lo. Foi o que aconteceu numa qualquer segunda-feira ..

–         Bom dia. Quantos estão cobrando hoje?

–         Bom dia. Senhor Plínio, por que você não conta outra piada?

–         Como assim?

–         Uma outra piada que não seja sobre cobrar os andares dos usuários de elevador. Isso é chato pra caraca. Será que o senhor não se toca?

Plínio ficara vermelho como a blusa da ascensorista. O que era pior, nem era ter sido rifado na sua alegria diária; era ter passado pela humilhação de estar em um elevador lotado e admoestado por uma… mal-humorada ascensorista.

–         A administração vai ficar sabendo disso! Sua insolente.

Os gritos não intimidaram a moça do elevador, muito menos os outros presentes que bateram palmas assim que ele saiu.

Então era isso. Nesse tempo todo estavam escutando a sua piada do elevador por educação, esperando pela primeira pessoa que  resolvesse botar um fim nisso tudo. A ascensorista só não fez isso como pôs fim também em outra coisa: o seu emprego.

Indignados, os ocupantes comerciais dos andares abaixo do 5º (o de Plínio) recusavam-se a entrar quando ele aparecia. Aos gritos, viam-no apalarmado subir sozinho. Diziam: “vai piadista de meia-tigela”, “recolhe o dinheiro dos andares, seu mané!”.

Mais assustador que a inquisição. Mais cruel que os tribunais de Kabul. Plínio via-se numa degradante condição de comediante fracassado e pessoa rejeitada. Resolveu sumir.

****

Já faz dois anos que Plínio Albuquerque não põe mais os pés no escritório nem conta mais piadas no elevador do prédio da Andrade e Associados. O seu Andrade morreu de malária em uma viagem em meio à selva. Nunca ficou sabendo dessa história. Sempre vinha de helicóptero, conhecia um ou dois de sua empresa e nunca ouvira falar em um tal de Plínio-da-piada-do-elevador.

As salas comerciais abaixo do escritório Andrade e Associados foram compradas por uma central de telemarketing.

Já vieram me dizer que a ascensorita que havia sido despedida matou Plínio. Já me disseram que ela é quem foi morta por ele – já que também escafedeu-se. No entanto, ninguém descarta a idéia de que acabaram se encotrando no Bebe’s, depois do expediente, e hoje estão casados.

Qualquer das três hipóteses é outra piada, e das mais vagabundas.

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3 Respostas to “A PIADA DO ELEVADOR”

  1. Leonardo Says:

    Hahaha…

    mas quanto tavam cobrando? :B

  2. rafael Says:

    você é tipo um Plínio da internet então?

  3. Plinio Vitorino Says:

    Era R$ 1,00 por andar!!!

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