O BRIÓI

Mariazinha era apaixonada pelo Briói. Era apaixonada por sua inteligência e as suas aventuras, relatadas com requinte, como um lorde, como alguém realmente inteligente. Que de fato viveu essas aventuras.

Briói esteve no Ártico. Trabalhou em navios noruegueses pescando muito bacalhau. Trouxe vários exemplares devidamente registrados e congelados. Trouxe a cabeça de um Cod Gadus Morhua, tão grande que parecia a de um tubarão.

“Ah, a Europa… Da futilidade das conveniências inglesas, a inquietude gritante de um quadro de Rembrandt no Louvre…”

A Mariazinha não entendia nada, mas suspirava imaginando-o percorrendo a Europa, em especial os Estados Unidos.

– Estados Unidos? Mas os Estados Unidos não fica na Europa. Aliás, quando estive em solo americano fiz uma pesquisa a respeito dos traços peculiares dos povos anglicanos e…

Ahh… mais um suspiro de Mariazinha. Seu sonho era casar com Briói. Cerca de oito meses, e centenas de afagos depois, o laço do matrimônio acabou enrolando os dois.

A jovem moça contava a todas as outras da comunidade que estava ao lado da pessoa mais inteligente que já tivera a seu lado. Da mente mais brilhante que já cruzara Cruz do Meio, interior de Santa Catarina, ou do lugar que você quiser que seja.

Embora houvesse uma admiração de toda a comunidade pelo Briói, a própria começava a desconfiar do forasteiro, de suas aventuras e, principalmente, de suas intenções. Estava casado há quase dois anos, o mesmo tempo em que perambulava pela região sem emprego e vivendo da renda da Mariazinha, que ganhou uma generosa herança do tio Astolfo. Aquele, do bingo.

Paulo da Farmácia foi o primeiro a cantar a pedra:

            Eu acho que esse cara é o maior falcatrua. Diz que sabe das coisas, que esteve em mil lugares, mas acho que é tudo Google. Pesquisa, e deu…

Oceano, dono da peixaria, também contribuiu:

            Mar da Noruega? Navio pesqueiro? Eu que trabalho com peixe há 20 anos, nunca vi uma cabeça de bacalhau!

A única pessoa que não tecia comentários nesse sentido era a Mariazinha. E a cada dia que passava se encantava ainda mais com a suposta sabedoria de Briói.

            Aquela inteligência… Aquela cabeça dele…

Mariazinha se derretia e passava alguns momentos do seu dia admirando o seu marido. Por alguma razão especial, do pescoço para cima.

            Xero.

            Oi.

            Eu queria ter só a sua cabeça para cuidar. Eu a enrolaria em um manto e a levaria por onde eu fosse.

            Mariazinha, você ouviu mais alguém comentando de minha pessoa por aí? Estive pensando em nos mudarmos.

            Pros Estados Unidos?

            Bem, eu pensei em Cruz do Alto, só pra dar uma refrescada na cabeça.

            Na cabeça…

Mariazinha vivia num mundo paralelo quando contemplava Briói. Não era um marido, era um deus. Foi ao céu quando ele colocou a cabeça no seu colo.

            Mariazinha, você acha que estou casado com você só pelo seu dinheiro?

Ela balançou o rosto como quem diz “não tô nem aí” e pousou as mãos nos cabelos de Briói. Fios grossos como linhas, em que ela mergulhava os dedos, da nuca até a testa.

Briói falou durante toda a noite com planos de sacar o dinheiro da poupança de Mariazinha e os dois irem para a Europa. Quem sabe até pros Estados Unidos. Falou e falou até adormecer no colo de sua esposa.

No outro dia, o Amílcar que trabalha no cartório levantou cedo e resolveu desmascarar tudo. Bateu na porta da casa e foi logo disparando:

            O seu nome é Heleno da Silva Querubim! Morou em Pedra Redonda quase a vida inteira. Te apelidaram de Briói porque vivia na BR101 pedindo carona. Descobri tudo com o Vieira, pelo MSN.

Depois deste dia, Heleno, ou Briói (o juntamento das letras e números da rodovia), não saiu mais de casa. A Mariazinha nem se importou, porque daí teria o tempo todo para ficar acariciando a cabeça de seu esposo.

            Xero, acho melhor a gente ir embora dessa cidade.

            Sim.

            Vamos para os exterior.

            Sim.

            Temos que antes passar em Florianópolis e dar entrada nos vistos.

            Sim.

            Eu quero ficar com você o resto da minha vida.

            E eu quero ficar com a sua cabeça pro resto da minha.

Mariazinha foi presa no aeroporto, tentando embarcar para os Estados Unidos. Estava com a roupa do corpo e uma caixa.

Perguntada se aquela era a cabeça do seu marido, ela piscou os olhos e suspirou.

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Uma resposta to “O BRIÓI”

  1. @leandrolopesp Says:

    Cacetada, que história boa! Briói… só percebi quando explicou a piada ahhahahha

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